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Licença da Vida, minha querida terrinha

Minha querida terrinha,

A semana foi difícil. De repente, me vi cansada.
Não era um cansaço físico, nem somente mental.
Era um cansaço da vida.

Sem querer — assim, do nada — olhei para o passado.
A cada cena que brotava na minha mente, eu ficava mais exausta.
Meu semblante me denunciava; as pessoas reparavam.
Mil hipóteses me lançavam, já que não costumo ser triste.
Meu sorriso sempre foi meu mundo. Sinceramente, eu devia era estar chorando.

Lembrei de uma música e percebi a verdade da letra:
“Quem me vê assim, sorridente, não sabe o que estou passando.”

As definições sobre quem eu sou me fizeram duvidar: será que eu me conheço?
A crise de identidade que chega na adolescência pegou-me desprevenida na meia-idade.

Se eu fosse adolescente, chamariam minhas atitudes de criativas.
Na minha idade, rotulam-nas de bipolaridade, de loucura, de querer aparecer.
Minhas ações já não correspondem ao que o mundo espera de mim.

Há um padrão a seguir — e eu não me encaixo.
Não sou boa dona de casa. Não sou boa mãe. Nem boa avó.
Gosto de dançar sozinha. Levanto a voz quando estou nervosa — dizem que isso não é educado.
Já não como sossegada; até a maneira de comer parece ter um manual.

Os remédios têm hora marcada.
Esquecem — porém — que eu não tenho hora.
Essa imagem é uma delas: a rotina tentando prender meu tempo, enquanto meu tempo insiste em ser meu.

Também não sou boa filha. Nem boa irmã. Amiga, então, melhor deixar pra lá.
Eu me orgulhava de ser boa profissional. Descobri que talvez não seja.

A semana foi passando.
A segunda: uma tristeza só — coitada, que nunca é a primeira.
A terça: piorou — ser a terceira requer coragem.
A quarta: que horror — às vezes parece não ter sentido; serve só para tapar buracos.
A quinta: o início do fim — melhor se preparar.
A sexta: o fim — e, surpreendentemente, o início do fim da tristeza.

Pensei que minha licença não precisaria ser aprovada.

As pessoas julgam. Condenam.
E, no entanto, é preciso tirar — sim — a licença da vida.
Resguardar-se. Ficar caladinha, num cantinho.

Quando preciso dessa licença, eu choro.
Minhas lágrimas lavam as feridas; levam a dor para longe — ao menos até eu me recompor.
O choro é purificação. É pausa necessária.

Difícil de entender? É, de fato, difícil.
Peço que entendam. Peço que aceitem.
Acredito, firmemente, que cada um de nós tem seus dias de licença da vida — e, no cotidiano, todos somos julgados.

O essencial, porém, é o retorno:
voltar da licença com forças redobradas, aos poucos reconstruindo o fôlego.
Voltar com cuidado, com leveza. Com a clareza de quem aprendeu a escutar o próprio ritmo.

E quando volto, renasço — nem sempre inteiro, mas mais atento.
Reaprendo a dançar, a rir, a comer, a amar.
E sigo, com um pouco mais de ternura por mim mesma.

E você? Já pediu licença da vida?

Crônica por Maria Cristina

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